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domingo, 26 de janeiro de 2014

Mosteiros de Portugal - Mosteiro de Santa Maria de Landim - Vila Nova de Famalicão








Localização

        O Mosteiro de Santa Maria de Landim localiza-se na freguesia de Landim, concelho de Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga, em Portugal.


Arquitectura :

          À data da sua fundação, nos inícios do séc. XII, o Mosteiro era românico e dele ainda permanecem alguns vestígios, como são exemplo os CAPITÉIS e as ARCADAS CEGAS na capela da igreja e alguns CAPITÉIS GEMINADOS com motivos da época, talvez já de transição para a centúria de duzentos, como assinalam as bases de bolbo, todos eles fragmentos possivelmente oriundos dum claustro românico destruído na reconstrução do séc. XVI. A igreja era de uma só nave, mais baixa do que a actual, e a capela de paredes rectas, sensivelmente quadrangular. Tinha tectos de madeira e um portal de três arquivoltas , cujos restos se encontram no antigo cemitério. A reforma do séc. XIII instalou a actual abóbada da capela sustentada em contrafortes exteriores e fez levantar a altura da nave, sendo dessa época alguns dos ornamentos românicos que resistiram às alterações posteriores, como os arcos-sob-cornija e o friso enxaquetado que rodeia a capela. A grande transformação viria, no entanto, a ocorrer no séc. XVI sob a égide do Cardeal-Bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, vulto de grande destaque na corrente renascentista europeia, que foi Comendatário do Mosteiro na primeira metade de quinhentos. A reconstrução maneirista, fortemente marcada pelo estilo arquitectónico da Companhia de Jesus, caracteriza-se pela obra da FACHADA DA IGREJA, reconstruída em três corpos lisos, divididos horizontalmente por cornijas rectilíneas, com galilé de três arcos e coro alto, e a edificação da torre e nave colateral. No Mosteiro, totalmente remodelado, salientam-se as construções do novo CLAUSTRO com colunas dóricas “à romana” e do SOBRECLAUSTRO aberto entre colunelos, que seria fechado, possivelmente já como domínio privado, em finais de setecentos. Os interiores conheceram sucessivas remodelações de decoração ao longo dos séc. XVII e XVIII com abundante utilização de azulejaria, onde sobressaiem padronagens de tapete e registos de natureza figurativa ao gosto popular de seiscentos, como os que se observam na CASA DO PAÇO , junto ao antigo campo do Jogo da Péla, e alguns notáveis trabalhos de talha barroca que se podem ver no RETÁBULO DA CAPELA e no arco de transição da nave ou no admirável tecto da SALA DO CAPÍTULO, perto do portal de entrada do Mosteiro novo. É ainda do séc. XVIII o órgão que embeleza a igreja, cuja construção invulgar justificaria restauro urgente.




História :

         As origens do Mosteiro de Landim remontam aos alvores da Baixa Idade Média. Embora sejam escassas e contraditórias as informações sobre a sua fundação, esta é atribuída, entre 1110 e 1128, a D. Gonçalo Rodrigues da Palmeira, filho do conde Rodrigo Forjaz de Trastâmara, da linhagem da Casa de Trava, que foi companheiro de armas do conde D. Henrique da Borgonha, pai de D. Afonso Henriques. Gonçalo Rodrigues ocupou lugares de relevo na corte da condessa D. Teresa de Leão e esteve na origem da linhagem dos Pereira através de um seu filho.
Mais tarde Gonçalo Rodrigues tê-lo-á dotado com o domínio de Palmeira que lhe coutou D. Afonso Henriques. A doação foi confirmada pelos seus filhos em documento de 1177, numa altura em que o Mosteiro, cuja comunidade original adoptou com toda a certeza os cânones da tradição hispânica, já estava reformado pela regra da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, sediados no Mosteiro de Santa Cruz , em Coimbra, conforme se lê no texto onde é designado por "Monasterio de Nandim & Ordini Sancti Agustini". Nas Inquirições de 1258 figura pela primeira vez com o nome de "Monasterio de Sancte Marie de Nandim", e manter-se-ia sempre no seio dos crúzios até à sua extinção em 1770.

Constituição do Mosteiro :

         A comunidade monástica de Santa Maria de Landim era constituída, no ano da extinção do mosteiro, por 17 cónegos e 5 conversos. Tudo indica, apesar das novas dependências com que o mosteiro foi ampliado por altura da sua reconstrução no século XVI, que o número de membros da comunidade nunca terá sido muito diferente desta ordem de grandeza.
O primeiro prior do Mosteiro de Landim, segundo noticia Frei Nicolau de Santa Maria na Chronica da ordem dos Conegos Regrantes do patriarca de S. Agostinho, foi D. Pedro Rodrigues, de quem o cronista diz ser filho de Rodrigo Forjaz de Tastâmara e, portanto, irmão de Gonçalo Rodrigues da Palmeira, fundador do mosteiro. Apesar de não constar de nenhuma compilação genealógica conhecida o nome de Pedro Rodrigues como um dos filhos de Rodrigo Forjaz de Trâstamara e sabendo-se que alguns dos factos narrados pelo cronista não têm fundamento histórico, não é de excluir a hipótese do fundador, a seguir à doação do Couto da Palmeira, ter pretendido consolidar a sua influência no mosteiro através de um irmão de sangue. O priorado de D. Pedro Rodrigues ficou assinalado pela assinatura da confirmação de doação do referido couto ao Monasterio de Nandim, & Ordini Sancti Augustini, pelos filhos de Gonçalo Rodrigues, em Junho de 1177. Sucedeu-lhe D. Pedro Garcia, sobrinho do arcebispo de Braga D. Godinho, o prior que, após a sua morte, foi venerado como santo pelas populações de Landim e terras circunvizinhas.
No século XIII apenas se conhecem dois priores: D. Miguel, a quem D. Sancho I, em 1210, delegou a mediação do conflito que o opôs a D. Martinho Rodrigues, bispo do Porto e neto de Gonçalo Rodrigues da Palmeira, e D. Fernando Pires, visitador geral da Ordem, em 1228, por nomeação do cardeal de Santa Sabina, João de Abavila. O nome de D. Martinho Domingues, prior do mosteiro entre o 1.º e o 2.º quartel do século XIV, aparece referido por D. Rodrigo da Cunha na sua Historia ecclesiastica dos arcebispos de Braga, e dos santos, e varões illustres que floresceram neste arcebispado , como tendo sido aquele em quem recaiu a escolha do arcebispo D. Gonçalo Pereira, trineto de Gonçalo Rodrigues da Palmeira, para proferir o sermão no Concílio Diocesano de Braga, em 1328. Na centúria de trezentos há ainda a assinalar o priorado de D. Francisco Miguel , de quem apenas se sabe que transitou de Landim para o Mosteiro de Santa Maria de Oliveira, onde também veio a ser investido prior no ano de 1356. A D. Martinho Gonçalves Taveira, cujo início do priorado deverá ser anterior a 1423, sucedeu-lhe seu filho D. Fernão Martins Taveira, camareiro do duque de Bragança D. Afonso, o filho bastardo de D. João I. Desconhecem-se as razões que conduziram à resignação destes dois priores, embora no caso de D. Fernão Martins Taveira este possa ter sido compelido pelo arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra, por não professar a regra dos Cónegos Regrantes. Pelo menos a partir de 1446 já D. Álvaro Afonso presidia aos destinos do mosteiro, um priorado que se estenderia por mais de três décadas.
No século XV, Landim passou a integrar a lista das instituições monásticas que se tornaram alvo de atribuição de comendas. D. Jorge da Costa, mais conhecido por Cardeal de Alpedrinha, terá sido, muito provavelmente, o primeiro comendatário do mosteiro. Em 1526, D. João III nomeou D. Miguel da Silva prior-perpétuo e comendatário do Mosteiro de Landim e abade comendatário do Mosteiro Beneditino de S. Tirso. O provimento destas comendas não terá passado de um gesto conciliatório com o Papa Clemente VII, pois o rei já tinha ordenado a cessação das funções de embaixador de Portugal junto da Santa Sé a D. Miguel da Silva e o seu imediato regresso ao reino, como forma de impedir que o Papa elevasse o prelado à dignidade de cardeal, em detrimento de um familiar seu. Impulsionador da introdução dos modelos arquitectónicos italianizantes no norte de Portugal, foi durante a permanência de D. Miguel da Silva como bispo de Viseu, que se iniciou no Mosteiro de Landim a sua mais profunda remodelação, como aliás atesta o Livro de Óbitos desta instituição ao designá-lo como seu comendatário e reedificador. Contudo, a pouca estima do rei pelo prelado continuou a manifestar-se. Para escapar às ameaças e perseguições movidas por D. João III, D. Miguel da Silva decidiu fugir, em 1540, para Itália, na esperança de encontrar junto do Papa Paulo III o acolhimento e a protecção que não tinha em Portugal, o que de facto se verificou, um ano depois, ao ser investido como Cardeal na Cúria Romana. No curto período que mediou entre a sua fuga e a emissão da carta régia em que D. João III o destituiu de todas as mercês, foi o seu sobrinho, D. António da Silva, abade do Mosteiro de Santo Tirso, que esteve na posse das comendas. Todavia, resultante das negociações entretanto mantidas entre D. João III e a Santa Sé, veio a ficar estabelecido que o novo comendatário de Landim seria o Cardeal Alexandre Farnésio, sobrinho do Papa Paulo III.
A era dos priores trienais iniciou-se em 1562, ano em que o Mosteiro de Landim se uniu à Congregação dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, sediada em Santa Cruz de Coimbra. À data da extinção do Mosteiro, ocorrida em 1770, era seu prior D. Agostinho de Nossa Senhora.



Exterior do Mosteiro :

         Podemos encontrar a sul do conjunto monástico temos o Parque e a Cerca que se estende por consideráveis terras agricultadas, no prolongamento de uma magnífica mata de carvalhos, matizada por faias, acácias e medronheiros. Junto ao Parque, embelezado por arruamentos e artísticos fontanários, existiu um gracioso horto com tanque e chafariz, onde ainda se podem ver os muros de suporte rematados de cantaria.








sábado, 25 de janeiro de 2014

Mosteiros de Portugal - Mosteiro do Paço de Sousa - Penafiel




Localização

        O Mosteiro de Paço de Sousa, também referido como Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa localiza-se em Paço de Sousa, no concelho de Penafiel, distrito do Porto, em Portugal. É um dos 21 monumentos que integram a chamada Rota do Românico do Vale do Sousa.


Arquitectura :

             Arquitectura religiosa, românica, gótica, seiscentista, setecentista e do séc. 20. Mosteiro beneditino composto por igreja e zona regral que se desenvolve no lado esquerdo, prolongando-se num corpo ao longo do terreiro, parcialmente desaparecido, Planta retangular composta por igreja e zona conventual, sendo a igreja de três naves, a central mais elevada, casa uma com três tramos, transepto inscrito, capela-mor comprida, retangular, de quatro tramos, ladeada por dois absidíolos, de volumes articulados e escalonados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas e de quatro no cruzeiro do transepto. Fachadas em cantaria de granito aparente, percorridas por alto embasamento, percorridas por frisos, com um motivo entrelaçado até à torre do transepto, a partir da qual se desenvolve em enxaquetado, sendo rematadas em bandas lombardas, sendo em cachorrada no transepto e torre do cruzeiro do transepto; as fachadas laterais possuem contrafortes pouco salientes. A fachada principal virada a O., revela a espacialidade interior, tripartida, com empena central, possuindo dois contrafortes que enquadram portal escavado, composto por cinco arquivoltas em arco apontado, rodeado por friso com motivos geométricos, com capitéis de temas fitomórficos biselados, com tímpano assente em bovídeo e cabeça humana, decorado com um círculo central contendo uma inscrição, ilegível, ladeado inferiormente por dois círculos onde estão esculpidos dois bustos humanos sustentando o sol e a lua. Sobre o portal, corre cornija ornada por cachorros figurando motivos zoomórficos. Sobre o portal, surge ampla rosácea de círculos encadeados, envolvida por três frisos de temas fitomórficos e esferas. Os eixos laterais são em meia-empena, o do lado esquerdo pontuado por mísulas e o oposto com óculo circular no topo. Fachada lateral esquerda rasgada por três frestas de volta perfeita no corpo da nave, o qual possui dois arcosólios de perfis apontados, e porta retilínea, encimada por arco de volta perfeita, cego. O corpo do transepto remata em empena, tendo contraforte no lado esquerdo e vestígios de vão em meia-luneta, encimado por rosácea com molduras de esferas. Fachada lateral direita parcialmente adossada ao corpo do mosteiro, sendo o corpo da nave semelhante à do lado oposto, possuindo portal escavado, de três arquivoltas de perfis apontados, assentes em colunas cilíndricas e com capitéis decorados por motivos fitomórficos. O corpo do transepto remata em empena, tendo contraforte no lado esquerdo e vestígios de frontão triangular, encimado por rosácea com molduras de esferas. Os absidíolos, de perfil curvo, rematam exteriormente por arcadas cegas em banda lombarda, apresentando frestas emolduradas com uma decoração de flores quadrilobadas e esferas. INTERIOR com naves separadas por grossos pilares de secção cruciforme, com sapatas circulares, dos quais arrancam, longitudinalmente, arcos formeiros, em arco apontado, encimados por clerestório, assim como os arcos torais, que nas naves colaterais estão sustentados por meias-colunas adossadas aos muros. Os pilares, compostos por colunas cilíndricas embebidas, com arestas boleadas como colunelos, estão assentes em bases bolbiformes apresentando capitéis decorados com temas fitomórficos. As paredes da nave são em cantaria de granito aparente, percorridas por frisos fitomórficos, tendo tetos de madeira e pavimentos em lajeado de granito. O cruzeiro do transepto tem os arcos laterais encimados por vãos em arcos de volta perfeita com duplas molduras biseladas. Portal axial protegido por guarda-vento de madeira e vidro, encimado por órgão de tubos positivo, com caixa em madeira e nichos frontal e nas ilhargas, com tubos metálicos. No lado do Evangelho, sobre um degrau, pia batismal em cantaria de granito, composta por coluna cilíndrica e taça facetada. No lado oposto, o túmulo de Egas Moniz. Nos braços do transepto, surgem, confrontantes, capelas retabulares laterais dedicadas a Nossa Senhora das Graças (Evangelho) e ao Sagrado Coração de Jesus (Epístola).
Arco triunfal de perfil abatido, com duas arquivoltas assentes em colunas embebidas nos muros, estando encimado por óculo decorado por motivos fitomórficos; está ladeado e acede aos absidíolos rematados em semicírculo com abóbada de centro quebrado evoluindo para quarto de esfera no semicírculo final, assentes em arcos torais de dupla arquivolta ornada por esferas, a interior assente em mísulas e a exterior em colunas embebidas nos muros, com capitéis decorados com motivos fitomórficos, todos com vestígios de policromia. Ambos têm altares paralelepipédicos, o do Evangelho com o sacrário, indiciando ser a Capela do Santíssimo, sendo a oposta dedicada a Nossa Senhora de Fátima. Capela-mor bastante profunda, de quatro tramos, com coberturas em abóbada de lunetas e de perfil apontado, com arcos torais que se apoiam em colunas embebidas nas paredes. Cada tramo é vazado por nicho de perfil lobulado e moldura em toro. Sobre supedâneo de cinco degraus, a mesa de altar de madeira, surgindo, na parede testeira, retábulo-mor de talha pintada de branco e dourado, de planta côncava e três eixos definidos por quatro colunas com fustes percorridos por falsa espira fitomórfica, assentes em plintos únicos, de perfis côncavos e ornados por folhagem. Ao centro, tribuna de perfil lobulado e moldura saliente, contendo tela pintada com a imagem do orago. Os eixos laterais possuem nichos de perfis abatidos e decorados por folhagem com os fundos pintados de azul. A estrutura remata em espaldar recortado e decorado por fragmentos de frontão, cornijas, acantos, anjos de vulto e cartela central, ornada por rosetão. Altar paralelepipédico, encimado por sacrário decorado por frisos recortados, volutas, acantos, folhagem e porta com motivos eucarísticos. No lado da Epístola, porta de acesso à sacristia, com as paredes rebocadas e pintadas de branco, com teto de madeira e pavimento em lajeado, contendo dois arcazes de madeira, um oratório *3, formando nicho em cantaria, em arco de volta perfeita, assente e ladeado por pilastras toscanas, de fustes almofadados, as exteriores encimadas por pináculos piramidais embutidos na estrutura; está ladeado por nichos de alfaias, em volta perfeita, e armários embutidos no muro, com portas de madeira; no lado oposto, porta com meias-pilastras toscanas, rematando em friso almofadado e frontão triangular interrompido e com tímpano ornado por florão. No lado esquerdo, a casa do lavabo, de pequenas dimensões, tem acesso por arco de volta perfeita assente em pilastras toscanas, tendo o intradorso pintado; está iluminado por duas janelas laterais e tem lavabo em cantaria de granito com vestígios de policromia azul e amarelo, estando integrado em vão de volta perfeita, tendo espaldar decorado por cartela encimada pelas insígnias abaciais, sobreposta por uma vieira, rodeado por moldura volutada; na base, duas bicas em forma de carranca, rodeadas por folhagem, que vertem para taça retilínea, em forma de consola, ornada por acantos e volutas. A ZONA CONVENTUAL, atual casa paroquial, desenvolve-se em torno de claustro quadrangular, com dois e três pisos, adaptando-se ao declive do terreno, com fachadas rasgadas por vãos retilíneos, dispostos uniformemente, tendo a fachada N., balcão de acesso à porta de acesso, com escadas de cantaria e guarda plena com colunas de arranque volutada; o portal está protegido por alpendre de madeira. O Claustro tem as alas divididas em sete tramos, marcados por arcos de volta perfeita, assentes em pilastras toscanas, com pilares angulares; duas alas ostentam dois pisos, com janelas de sacada com guardas metálicas pintadas de verde. No centro da quadra, com canteiros angulares em cantaria, chafariz sobre plataforma de três degraus e tanque quadrilobado, com duas taças sobrepostas, sustentando a bica, figurando quatro pelicanos interligados pelas asas. As alas têm, no primeiro piso, tetos de madeira e pavimentos em lajeado, a ala S. com sepulturas, algumas epigrafadas e datadas do séc. 18; para cada uma delas, abrem vãos retilíneos ou de volta perfeita. Na ala N., arco de volta perfeita, protegido por grades metálicas, acede à escada regral de três lanços de cantaria e guardas plenas do mesmo material, os superiores divergentes, ligando a duas portas de verga reta e ao corredor do coro. Por cima da sacristia, com acesso pelo andar superior do claustro, através de uma porta de vão retangular, fica a antiga Sala do Capítulo, soalhada e com teto de masseira. No lado NO., a TORRE sineira, quadrangular, rematada em parapeito de ameias decorativas, assentes em cachorrada; tem acesso por porta de volta perfeita escava na face S., com tímpano vazado por cruz e assente em mísulas decoradas; na face O., balcão de guarda plena, sustentado por mísulas lobuladas, para onde abre porta de verga reta. Possui quatro sineiras de volta perfeita.



Arquitecto e Construtor :

         Arquitectos: Baltazar de Castro (1933); Rogério de Azevedo (1963). Eletricistas: Francisco Luís Pais & Fernando, Lda. (1976); João Jacinto Tomé (1961-1963); José Maria dos Santos & Santos (1938). Empreiteiro: Afonso Ferreira de Oliveira (1976); Alcino da Cunha Nogueira (1930); Ferreira dos Santos & Rodrigues, Lda. (197, 1980); Francisco Pinto Loureiro (1932, 1934, 1936, 1938-1939, 1960, 1967, 1969, 1971); Joaquim D.S. Costa & C.ª Lda (1987). Entalhador: Manuel Alves de Araújo (1784). Fornecedores: Fábrica de Cerâmica da Pampilhosa (1938). Ourives: Manuel do Couto e Sousa (1706).




História :

            Foi fundado no século X por D. Godo Trutesindo Galindes, ascendente de Egas Moniz, o aio, que fez erguer neste local o seu paço. Serviu de refúgio ao abade Radulfo, aquando das invasões de Almançor (994). Constituía-se em uma comunidade beneditina. O mosteiro foi desocupado muitos anos depois e veio a cair em estado de degradação. Foi alvo de algumas obras de manutenção no século XI, vindo a ser completamente recuperado em meados do século XIII. Nesta mesma época foi feita a ampliação da Igreja anexa. Novas campanhas de conservação e restauro foram empreendidas no século XVIII e, mais tarde, no século XX, após um violento incêndio ter devorado os tetos de madeira da igreja em 1927.
Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, o convento foi vendido em hasta pública, mas a igreja manteve-se aberta ao público. Encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no DG nº 136, de 23 de junho de 1910; 67/97, DR 301, de 31 de dezembro de 1997. No interior deste mosteiro encontra-se sepultado Egas Moniz, preceptor de Afonso I de Portugal. No interior do túmulo existe uma pequena caixa de cobre com as suas cinzas fúnebres. O túmulo em si é uma magnífica peça com altos-relevos que retratam a ida do aio de D. Afonso Henriques à Corte do reino de Leão. No inicio foi utilizado como mosteiro masculino da Ordem de São Bento (Beneditinos) e nos dias de hoje é igreja paroquial (integra a rota do Românico do vale do Sousa ).



Pormenor do interior :

            O Túmulo de Egas Moniz integra as lajes de dois momentos distintos: nos laterais estão iconografadas cenas de Egas Moniz jazendo no leito, a sua deposição no túmulo, um prelado de báculo e livro nas mãos e a lendária deslocação a Toledo. Uma das tampas que o recobre, do primeiro cenotáfio, apresenta uma epígrafe, disposta em duas regras, gravadas em sentidos opostos: "HIC : REQVIESCIT : FL'S : DEI : EGAS : MONIZ : VIR : INCLITVS / ERA : MILLESIMA : (CE)ENTESIMA : LXXXII(II)". A outra tampa, anepígrafa, apresenta nos planos oblíquos uma decoração vegetalista geometrizante. Por detrás do túmulo, na parede O., encontra-se uma tampa sepulcral, de formato trapezoidal e de secção rectangular, com moldura a toda a volta delimitando um campo onde está esculpida a figura de um Abade. Esta tem vestes litúrgicas, báculo na mão esquerda, com o remate em forma de cabeça de serpente e a mão direita levantada em sinal de bênção. No lado do Evangelho, encontra-se um silhar com a figuração de São Pedro. A imagem encontra-se com as vestes litúrgicas, estando esculpida sob um baldaquino, encimado pelas insígnias papais. Junto à porta S., na parede externa, encontra-se uma inscrição funerária, referente ao Abade Monius, falecido em 1202: "ERA : M : CC : X : OBIIT / MONIVS : ABBAS : X : AGTI / MONI : PAT : ET : ABBAS / IN : PACE : REQVIESCAS". Na mesma parede encontra-se uma outra inscrição, mas de feitura moderna. Os retábulos laterais são semelhantes, de talha pintada de branco, azul e dourado, de planta reta e um eixo definido por duas colunas coríntias assentes em duas ordens de plintos paralelepipédicos, os superiores ornados por folhagem. Ao centro, nicho de volta perfeita com molduras simples e seguintes ornados por folhagem, o do Evangelho protegido por vidraça e com fundo fitomórfico, tendo, na base, nicho circular; o do lado oposto tem o fundo pintado com motivos fitomórficos, em tons de vermelho, tendo, na base, amplo nicho retilíneo, protegido por drapeados. A estrutura remata em friso de acantos enrolados e frontão triangular contendo resplendor. Altar em forma de urna com cartela central e decoração de acantos.
                                                                                                                                      Egas Moniz

Túmulo de Egas Moniz 

Igreja

          Igreja de construção românica, de que subsistem alguns contrafortes, atualmente sem função, os portais axial e S., arcosólios, os absidíolos e, provavelmente, a torre do cruzeiro do transepto. Foi remodelado posteriormente, já com tendências góticas, como se depreende da sistemática utilização dos arcos apontados, bem como do recurso às naves escalonados, permitindo uma iluminação interna uniforme, de características mendicantes. Sofreu um restauro purista no início do séc. 20, com a remoção do património integrado, subsistindo uma pia batismal, de provável feitura seiscentista, o túmulo de Egas Moniz, embora mutilado, e dois retábulos laterais, de talha pintada e de execução neoclássica. As janelas, pequenas frestas nas naves, rosácea e rosetões no transepto são de execução novecentista. O edifício sofre amplas reformas no séc. 17, com a feitura do claustro, com arcadas inferiores toscanas, a construção da sacristia, com oratório em cantaria e lavabo em casa separada, com vestígios de policromia, bem como a reforma do transepto, sendo visíveis lunetas entaipadas que fariam parte de um sistema distinto de iluminação interna. A capela-mor é profunda, dividida em tramos com os panos laterais vazados por arcos lobulados, de construção setecentista, tal como a abóbada, de lunetas, e o retábulo. As fachadas exteriores são percorridas por friso de entrelaçado fitomórfico até à torre do cruzeiro, a partir da qual se desenvolve em enxaquetado. O terreiro possui cruzeiro semelhante aos dos demais Mosteiros da Ordem, de feitura seiscentista. A estrutura em cantaria de granito; coberturas em madeira, revestidas exteriormente a telha; cobertura dos absidíolos em cantaria de granito; pavimento em lajes graníticas; portas de madeira e janelas com caixilharias também de madeira; cenotáfio de granito; madeira no tecto da sacristia e da Sala do Capítulo; gradeamentos em ferro; placas de cimento; retábulos em talha pintada; pinturas murais.


Exterior

          Urbano, isolado, implantado num terreno com ligeiro declive, a que se adapta, estando rodeado por terrenos de cultivo, que integravam a primitiva cerca, tendo, no lado esquerdo, o Cemitério e, a E., a Casa do Gaiato. Possui um adro, fechado por murete em cantaria de granito, com acesso frontal formado por pilares e pináculos de bola, com pavimento em lajeado junto à igreja, sendo a envolvente em terra batida, estando pontuado por arcas funerárias e árvores de pequeno porte. Um dos sarcófagos é antropomórfico com os laterais bastante danificados, sem tampa, surgindo um outro, apresentando num dos laterais um motivo decorativo representando três pés de milho miúdo, semelhante ao motivo do brasão de armas da família dos Milhaços. A tampa que o cobre não lhe corresponde e é em tudo idêntica a uma das que se sobrepõe ao túmulo de Egas Moniz, apresentando nos planos oblíquos uma decoração vegetalista geometrizante *2. Fronteiro e num plano mais baixo, ergue-se sobre o ribeiro de Gamuz uma zona arborizada, com algumas árvores centenárias, sendo o ribeiro atravessado por duas pontes, uma de feitura recente e outra em cantaria de granito aparente, do tipo arco e com tabuleiro em cavalete, tendo guardas plenas. Surge, ainda, uma nora, um regueiro, uma zona de piqueniques com mobiliário em madeira e metal, surgindo, ainda, um centro de acolhimento paroquial, também ele de madeira. O terreiro tem, fronteiro, Cruzeiro de soco quadrangular, base também quadrangular decorada com pedra de armas, paquife e elementos vegetalistas, coluna circular interrompida a um terço por anel e tendo, inferior e superiormente, palmetas estilizadas, capitel coríntio encimado por bola e cruz; tem a data "1690".








quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Mosteiros de Portugal : Mosteiro de Vilar dos Frades - Barcelos

Vilar de Frades.JPG

Localização

        A Igreja de São Salvador de Vilar de Frades, também referida como Igreja de Vilar de Frades e Igreja do Mosteiro dos Lóios, localiza-se no sopé do monte Airó, junto à margem esquerda do rio Cávado, na freguesia de Areias de Vilar, concelho de Barcelos, distrito de Braga, em Portugal. Faz parte do complexo do convento da Congregação dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista que aí estabeleceu a sua primeira casa-mãe, tendo sido, antes, um mosteiro beneditino. Encontra-se classificada como Monumento Nacional desde 1910.

Arquitectura

          Templo reforçado exteriormente por gigantes, portal românico constituído por 2 arquivoltas assentes em 4 colunelos de capitéis historiados, alpendre saliente de arco abatido, apoiado em 2 meias colunas de capitéis esculpidos, sobre o qual uma tripla arcada em ogiva ilumina o interior do templo, de planta cruciforme. Nave coberta por complexa abóbada de nervuras cruzadas. Recortam-se de cada lado 5 capelas abobadadas, 2 delas notáveis pelos painéis de azulejos do séc. 18. A sua arquitectura é notável, especialmente pelo abobadamento da igreja, principalmente na capela-mor e transepto, bem como pelo portal manuelino da fachada principal, ao lado do qual se encontra, na torre sul, um portal e uma janela de características românicas, construídos, contudo, já no século XIX com vestígios do mosteiro original.


Arquitecto e Construtor

         Carpinteiro: Bartolomeu Dias (1520). Ensablador: António João Padilha (1682). Entalhadores: António Coelho (atr., 1611); António de Lamego; António Gomes (1696); Domingos Nunes (1696); Pêro de Figueiredo (1596). Organeiro: Heitor Lobo (1551). Pintor de Azuleijo: Bartolomeu Antunes (1736-1742); Nicolau de Freitas (séc. 18). Este monumento foi construído entre os séc. 11 e 16, o portal é um dos mais notáveis exemplares de entre Douro e Minho, foram usados para a construção da abóbada calcário branco das pedreiras de Peniche; estrutura de granito.




História

        A mais antiga referência ao mosteiro beneditino de Vilar de Frades data de 1509. Contudo, segundo Frei Leão de São Tomás, teria existido uma carta do monge beneditino frei Drumário, escrita em 7 de Outubro de 571 que datava a fundação do mosteiro em 566, pela mão de São Martinho de Dume.5Segundo Jorge de São Paulo, acreditando na existência dessa carta, o mosteiro seguiu a regra de São Bento desde essa data até 714, ano em que foi destruído devido às invasões muçulmanas, nada restando dessa fase da vida do convento. Teria sido reconstruído, segundo o mesmo autor, em 1070, mantendo-se sob a alçada da Ordem Beneditina até 1425. A reconstrução foi obra, sobretudo, de nobres locais, como D. Godinho Viegas, que pelo seu empenho na Reconquista Cristã, receberam os favores dos primeiros monarcas portugueses, como Sancho I, que deu a carta de couto ao mosteiro em 1172. Em 1104, Dona Gotinha, parente de D. Godinho Viegas, terá dado um novo estímulo ao convento, doando uma propriedade rústica da freguesia de Santiago de Encourados. Em 1302, Dona Beringeira Aires, herdeira e padroeira de outros conventos além deste, doou, a 12 de Agosto, o padroado e jurisdição que tinha sobre o mosteiro a D. Geraldo, bispo do Porto. Em 1400, passou a ser uma abadia secular, sob o padroado do arcebispo de Braga, D. Martinho Afonso Pires. Em 1425, finalmente, D. Fernando da Guerra, arcebispo de Braga, passa o mosteiro para as mãos de Mestre João Vicente, futuro bispo de Lamego e Viseu. Este encontrou-o em bastante mau estado, mas reformou-o de forma exemplar, com o apoio que recebeu da Santa Sé e da Diocese de Braga que anexaram 13 igrejas ao convento até 1510, depois de ter faltado apoio semelhante à nova congregação religiosa em outros locais. A congregação ainda teve o apoio de D. Vasco, em Évora, mas a oferta do mosteiro veio a mostrar-se decisiva. O Mestre terá encontrado o antigo mosteiro reduzido a umas "pobres casas ou chóças, & huma pequena Igreja, tudo em tal estado que mais tinha de ruina, que de edificio". O Claustro servia, nessa altura, de corte de gado, as oficinas estavam arrasadas, a igreja servia de celeiro e adega. Os frades passaram a viver nas celas térreas e na igreja velha. 
O apoio da Sé de Braga não foi constante. Ainda que a congregação se tenha instalado em Vilar com a concordância do cabido da Sé de Braga, que permitiu a anexação da Igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea desde que os futuros reitores se submetessem à autoridade do arcebispo de Braga, ficando a confirmação da eleição dos mesmos, em Capítulo Geral, dependente da confirmação da Sé. Os cónegos, contudo, desde cedo que manifestaram desejos de autonomia em relação a Braga, procurando apoio junto da corte régia (Afonso V de Portugal), junto do conde de Barcelos, do Duque de Bragança e mesmo da Santa Sé. Esta última confirmaria o seu apoio à nova Ordem, durante o pontificado dos papas Martinho V e Eugénio IV - este último promoveu o mestre João Vicente a bispo de Lamego, além de ordenar que o convento ficasse sem dependência do Arcebispo. Monsenhor José Augusto Ferreira chega mesmo a dizer que os "Cónegos Azuis de Vilar fizeram-se vermelhos e enveredaram pelo caminho da ingratidão". A acção de D. Fernando da Guerra é, aliás, paradoxal neste conflito de interesses, já que continuou a anexar igrejas ao convento, ao mesmo tempo que tentava forçar os frades a reconhecerem a sua autoridade, o que conseguiu a 29 de Abril de 1461, ao confirmar o Reitor João de Nazareth. Nos séculos seguintes, os reitores tentarão, de novo, o máximo de autonomia em relação ao arcebispado. Há que ter em conta que, tal como defende José Marques,8 a Ordem dos Lóios, ou cónegos seculares evangelistas, que se apresentava como uma comunidade de "tipo novo", deve, sem dúvida, a sua existência e fundação ao apoio de D. Fernando da Guerra, ao ceder as instalações do convento de S. Salvador de Vilar de Frades - até porque a congregação tinha tido problemas em instalar-se tanto em Lisboa como no Porto, recebendo apenas apoio em Braga.
Ao convento foram anexadas, ao longo da sua ocupação pelos Lóios, várias igrejas, a maioria das quais pela mão de D. Fernando da Guerra, dando um poderio crescente à Ordem nesta região. Além da já citada igreja do Mosteiro de São Bento da Várzea, anexou ainda a Igreja de Santa Maria Madalena, de São João de Areias de Vilar, Santa Leocádia de Pedra Furada, Santa Maria de Moure, S. Jorge de Airó, São Martinho de Airó, São Vicente de Areias, São Pedro de Adães e Santiago de Encourados. O Arcebispo D. Luís Pires fará ainda a anexação de Santa Maria de Góis, depois da renúncia do abade desta Igreja ao ingressar na Ordem dos Lóios. A Igreja de São Martinho de Manhente (e convento) terá sido confiada pelo Papa Nicolau V, através de uma bula de 1448, confirmada por uma bula posterior de 1450, tendo sido feita a tomada de posse em 1480, após confirmação também de D. Luís Pires. Com esta anexação, o reitor de Vilar de Frades passou a deter as prerrogativas do couto de Manhente, ou seja, capitão-mor, coudel-mor, repartidor das armas, alcaide-mor e ouvidor do cível, tendo a competência de nomear o juiz do couto. A Igreja de São Melião de Mariz foi anexada após um conjunto de peripécias: após a morte do abade desta igreja, os cónegos pediram a D. Jorge da Costa, que estava em Roma, para que anexasse também esta igreja ao seu convento. O Cardeal, contudo, designou João dos Santos como abade desta igreja. Os cónegos, contudo, convenceram o novo abade a ingressar na congregação e a pedir a anexação da igreja ao seu convento. O Papa Júlio II confirmará a anexação.
A Congregação coleccionará, durante a sua história, vários favores, indultos, graças, isenções e privilégios concedidos por vários papas, como Gregório VII, Eugénio IV, Leão X, Pio II, Alexandre VI, Clemente VII, Pio V, Sisto V, Clemente VIII, Inocêncio XI e Alexandre VIII. D. Afonso V foi um dos reis portugueses que mais beneficiou a Ordem, e Vilar de Frades em particular, com diversos privilégios e isenções. Francisco de Santa Maria refere ainda a participação entusiástica dos frades aquando da aclamação de João IV de Portugal, após o domínio filipino. João V de Portugal confirmou os privilégios concedidos pelos seus antecessores, ao conceder ao Convento de Vilar de Frades o mesmo alvará que tinha concedido ao Hospital Real de Todos os Santos. Maria I de Portugal, a 23 de outubro de 1779 fundou no convento uma escola "de ler, escrever e contar". Por provisão régia de 1782, a soberana concedia aos cónegos de Vilar de Frades os mesmos privilégios que tinham sido atribuídos ao cabido da Sé do Porto e aos monges da Ordem beneditina, no intuito de proteger os interesses económicos do convento. No final do século XVIII, Vilar de Frades detinha um largo poder temporal e económico sobre 126 freguesias. A ostentação e riqueza da colegiada é testemunhada pelo abade barcelense José Rosa, que em 1899 escrevia, em "O Comércio de Barcelos", que estes cónegos "ostentavam mais fausto e apparato na sua collegial ou collegiada que os Cónegos da metrópole bracharense". Antigamente foi usado por uma instituição religiosa : Mosteiro masculino da Ordem de São Bento (Beneditinos) e nos nossos dias é usado por uma instituição religiosa : igreja / Assistencial: lar (parte do mosteiro).


Pormenores no seu interior

Igreja

         Acede-se ao terreiro da Igreja por uma portada em cujo nicho da parte superior pontifica a figura de São Lourenço Justiniano, reformador da ordem dos Cónegos Seculares de São João Evangelista.
A Igreja românica primitiva, de que subsistem alguns elementos no lado sul - à direita de quem vê - da fachada ("torre velha") tem sido datada de forma irregular por vários autores, variando de 1070 até ao início do século XIII. Contudo, tendo em conta a data da carta de couto e as características estilísticas dos elementos conservados, próprios do Românico tardio, crê-se que tenha sido feita no último quartel do século XII. Tanto o portal como a janela que o encima foram reconstruídos no início do século XIX, modificando, provavelmente, grande parte da estrutura original, por ordem do reitor Martinho José de Almeida. O portal está dotado actualmente de três arquivoltas ornamentadas com seres fabulosos e elementos naturalistas e geométricos, que assentam em colunelos com capitéis onde estão lavrados elementos típicos do bestiário românico, com planta em forma de cruz latina com transepto reduzido, tem a cabeceira para leste. O corpo é de nave única, separada de cinco capelas laterais intercomunicantes de cada lado que se demarcam da nave por grades de madeira. Estas características assemelham-se ao que foi designado como igrejas criptocolaterais, comuns desde meados do século XVI. A capela mor é relativamente profunda, com planta rectangular, de dimensões monumentais, ao contrário do transepto, mais modesto na sua volumetria, existindo um desnivelamento pouco acentuado entre estes dois espaços, o que facilitaria a comunicação com a nave. Este aspecto funcional será, depois, largamente utilizado nas igrejas jesuíticas. A Igreja teve várias obras de consolidação, a cargo da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e do Instituto Português do Património Arquitectónico (desde a década de 1990), realizando-se obras nas coberturas, limpezas e drenagens, estabilização de estruturas e limpeza e isolamento de paramentos e cantarias, sondagens arqueológicas, bem como obras de reabilitação das fachadas e caixilharias da Igreja e acabamento das salas de catequese.






Capela Mor e Cruzeiro

          A pedra utilizada na capela-mor é um tipo de granito extraído no monte da Penida, em Areias de Vilar, de qualidade estética invulgar, já que se chega a assemelhar ao mármore no aspecto e ao calcário na sua maleabilidade ao trabalhar. Os muros laterais da capela-mor são rasgados por três janelas de cada lado, dispostas simetricamente, em concordância com seis contrafortes da parte exterior (três de cada lado, estando dois nos cunhais). Ainda que recorrendo a elementos próprios do estilo manuelino, a relação de proporcionalidade harmónica e equilibrada do conjunto insere-se numa linha classicista acentuada pela luz das fenestrações, pela claridade do granito usado, pelas mísulas que suportam as nervuras do tecto e pelo friso que as une inferiormente, a meia altura das janelas, envolvendo estas últimas. O abobadamento, com a traça típica de João de Castilho, foi construído segundo novas técnicas em que se aplicaram nervuras de combados que permitiam um notável rebaixamento do seu perfil. Os próprios artífices, desconfiados da nova técnica, chegaram mesmo a temer pelo desmoronamento do conjunto cujo peso é suportado por oito mísulas (quatro em cada parede lateral) que assentam nos contrafortes. As nervuras desta abóbada estão organizadas em feixes prismáticos que, ascendendo das mísulas, a meia altura da parede, formam três tramos concebidos a partir de módulos rectangulares, onde, pelo seu cruzamento dão origem a terciarões e cruzarias, com fechos centrais (onde se vêem rosas e emblemas como os dois brasões de D. Diogo de Sousa) e fechos secundários marcados por rosetas lavradas na pedra. Entre o arco cruzeiro, que nasce ao nível do mesmo friso que une as mísulas, e o arco da capela-mor, enquadra-se o cruzeiro, de dimensões relativamente mais comedidas, cuja abóbada é também nervada em rectângulo e em cujo fecho axial se exibe um motivo solar (de interpretação duvidosa: ou a face de Deus ou o sol monástico da Congregação).
As mísulas são mais modestas que as da capela-mor e do restante da nave. O arco cruzeiro, muito ligeiramente apontado, resulta da junção de três pseudo-colunas de base mistilínea (ou seja, circular e poligonal) que se prolongam formando um arco trilobado, com uma corda, flores e outros motivos vegetalistas esculpidos, mas sem os excessos típicos do manuelino, ainda que o evoque. Em 1697, aumentou-se a cabeceira para nascente, para se incluir o retábulo-mor e a respectiva tribuna, pela mão do mestre pedreiro Pascoal Fernandes e João Moreira, do Porto, em "estilo Chão". Esta ampliação, visível do exterior, na parte traseira do edifício, contrasta em estilo com o edifício manuelino - em vez dos contrafortes e de uma cornija côncava decorada com rosetas, o anexo apresenta pilastras maneiristas e uma cornija convexa com um friso inferior. Em 1930, o director interino dos "Monumentos do Norte" referia, contudo, a necessidade de obras urgentes nos telhados, portada, caixilharia e consolidação da abóbada da capela mor, que ameaçava ruir devido ao apeamento da parede testeira para dar lugar ao retábulo.

                                                                                                                Retábulo-Mor

Abóbada da Capela-Mor                                                                                                    
Capelas colaterais e Coro

           As capelas colaterais de estilo manuelino, já acima mencionadas, são também relevantes quanto às suas abóbadas, de estrutura quase quadrangular. As suas nervuras partem de mísulas ornamentadas com temas vegetalistas, antropomórficos e da fauna, ressaltando a imagem da águia de São João Evangelista. Cada abóbada parte de quatro mísulas nos quatro cantos das capelas, de onde partem feixes de cinco nervuras. No caso da capela do lado do Evangelho (lado esquerdo de quem assiste à cerimónia religiosa), os nervos formam um círculo com fechos com rosas esculpidas e, no centro, o brasão dos Pereiras (família do marido da promotora da capela). A capela do lado da Epístola (lado direito), ainda que parta do mesmo esquema básico, apresenta outra complexidade, com um "quadrado" com lado encurvados e côncavos, inscrito numa roda de granito e formando, no seu interior uma flor de quatro pétalas que, no fecho, liga o brasão da Ordem às armas dos Sousas. As nervuras inscritas no círculo são trabalhadas e apresentam rosas de granito nas chaves, ambas as capelas teriam sido servidas de duas janelas. Actualmente persistem as janelas semi-esféricas, embora também tivessem sido iluminadas, pelo fundo, por outra de estilo manuelino - e teriam, com certeza, vitrais que, entretanto se perderam. O alargamento do transepto, provavelmente no século XVIII, quando as capelas já não eram de uso privado, para receber o culto do Santíssimo Sacramento, eliminou essa janela. Anteriormente, era aí a capela em louvor de São Lourenço Justiniano. A mesma janela, do lado da Epístola, sobre a porta que comunica com a sacristia e o claustro, encontra-se actualmente entaipada e cortada por um friso. Desta capela foi desmantelado um retábulo que foi transferido para a Igreja de Almacave, em Lamego.
O coro, terminado durante as obras do século XVI, foi reformado em 1682, pela mão do ensamblador António João Padilha, do Porto, para construção de um cadeiral, espaldares, estante, grades e tribuna para o órgão.
                                                                                                             Capela ao lado do Evangelho
Capela ao lado da Epístola

Órgão da Igreja 

Corpo da Igreja

          O resto do corpo da igreja terá sido construído ainda pelo mesmo João Lopes, o Velho, numa segunda fase das obras que os frades tiveram de custear maioritariamente, devido ao desentendimento com o Bispo D. Diogo de Sousa que, ainda assim, pagou os vitrais do Coro - informação essa que permite concluir que as obras quinhentistas terão terminado antes de 1532, ano da morte do prelado. Foram construídos, nesta fase, a portada da Igreja e o arco e abóbada para "fundamento do Choro". O corpo da Igreja, mantendo a planta que teria sido traçada originalmente, teria características das chamadas "igrejas-salão", com o seu formato rectangular, amplo e apenas ladeado pelas cinco fileiras de capelas laterais intercomunicantes através de portas rectangulares. Desse corpo quinhentista resta apenas um muro irregular a norte, com quatro das cinco frestas originais entaipadas. A falta de recursos monetários obrigou ainda os frades a cobrir a nave com um forro de madeira sustentada de modo frágil por paredes pouco espessas e sem contrafortes - o que obrigaria a obras nas décadas de 1620 e 1630 das quais resultariam as actuais imponentes abóbadas. Sobre as capelas do lado do Evangelho foi construída uma biblioteca e supõe-se que do lado sul (da Epístola) correria um dormitório onde dormiriam os monges ordenados até à inauguração dos novos dormitórios "da varanda" em 1572, e onde passaram a dormir os noviços depois desta data. O corpo da nave estaria servido, além da porta principal, por uma ou duas portas de acesso às torres, uma porta de acesso ao claustro (porta das procissões) e frestas por cada capela lateral, simples, toscas e rebocadas, de acordo com o chamado Estilo Chão, apenas com a função de permitir a entrada de luz.
Actualmente, a nave única desta que faz lembrar o modelo das chamadas igreja-salão (Hallenkirche) está coberta por uma complexa abóbada nervurada, concluída apenas em meados do século XVII, provavelmente em 1638. As capelas laterais terão sido terminadas em 1658. Nestas obras manteve-se o espírito do século XVI, ao estabelecer um espaço amplo, adequado ao acolhimento de um grande auditório, mantendo muitas das características da capela-mor, ao transepto e ao portal manuelino, para além das próprias dimensões. O material, granito porfiróide, mantém-se, bem como o esquema de quatro janelas recortadas, de cada lado, no registo superior dos muros da nave, ainda que sem elementos decorativos, tanto no interior como no exterior, assim como o friso contínuo, ainda que mais discreto, de onde arrancam dez mísulas com feixes prismáticos de onze nervuras que se cruzam de forma virtuosística na abóbada. A este plano tipicamente renascentista (fora de época) junta-se a decoração dos oito arcos de volta inteira das capelas laterais que se assemelham, no estilo, aos temas típicos do final da Idade Média, com bases mistilíneas invertidas, rosas, elementos vegetalistas, parras, cachos de uvas, crianças nuas em estranhas posições, macacos e o que se julga ser um coelho a tocar gaita de foles. As janelas das capelas foram entaipadas no século seguinte para instalar os retábulos barrocos. A abóbada das capelas é também formada por cruzamento de nervuras, com uma rosa bem definida no centro do plano definido por uma cruz de simetria rigorosa, com quatro chaves, esculpidas com elementos vegetais, a marcar as extremidades dessa cruz.
Entre o espólio da igreja contam-se os azulejos do século XVI, assinados e datados de 1742 forrando duas capelas do interior, e outros já do século XVIII, possivelmente de fabrico regional e bastante raros. O altar-mor é constituído actualmente por uma peça de talha imponente, em estilo nacional, datado de 1697. Destacam-se ainda duas telas de Pedro Alexandrino, na sacristia (construída no século XVIII), e várias esculturas. 
                                                                                                                                                                                                                                                                                Pormenor do arranque das nervuras 
                                                                                                             a partir das mísulas
Vista das abóbodas do corpo da 
Igreja em direcção ao Coro

Área conventual

            Ao mesmo tempo que se iniciavam as obras do início do século XVI na Igreja, todo o edifício a nascente do claustro, a partir do braço esquerdo do transepto foi reconstruído. Sabe-se que as mesmas terão sido executadas antes de 1520 já que existe um documento a respeito de um carpinteiro, de nome Bartolomeu Dias que, contratado neste ano para as obras no Mosteiro da Avé-Maria no Porto, as deveria executar conforme fizera no Convento de Vilar de Frades.13 As obras mantiveram-se durante todo este século. Manuel de Elvas terá mandado construir o dormitório ocidental a 1523, sobre o vão da adega, ainda hoje existente. Estas obras terão terminado em 1525. Em 1543, sob as ordens de Cristóvão da Purificação, ergueu-se o dormitório de "Vale de Cavalinhos", composto em pedra de cantaria e de celas espaçosas. Ainda nessa década, Gabriel da Conceição fez a encomenda das obras do dormitório grande, junto à horta, das instalações do Colégio de Filosofia e Teologia, de um refeitório novo e de uma cozinha. Em 1572, Gaspar de Cristo Baião mandou construir o "dormitório da varanda", sendo ainda responsável pela construção de duas azenhas após a compra de "levada de água" junto à cerca conventual. Foi ainda construída por ordem de Álvaro de Santa Maria, de 1581 a 1583, uma lavandaria ou casa de limpeza de planta quase quadrangular que aproveitava a água das azenhas nos dias vagos, seguindo-se sob o mesmo reitor, a construção das casas da procuração, do azeite e os celeiros. Ao longo do século XVI construíram-se ainda várias capelas no interior da cerca conventual que foram arrasadas ao longo do tempo, tendo as últimas sido demolidas pelo seu primeiro proprietário leigo. As capelinhas, datadas de 1537, 1583 e 1590 incluiriam as 14 capelas do calvário e duas célebres capelas do "presépio" e do "passarinho". Foram construídas pelos próprios frades que nelas empenhavam as suas capacidades artesanais utilizando elementos decorativos diversificados, como conchas e pedrinhas. Entre 1698 e 1705, continuarão as obras no convento, especialmente nos dormitórios. Em Maio de 1700, é contratado Manuel Fernandes da Silva para que redimensione o espaço ocidental do convento, o adro da igreja e o terreiro dos cabedais. Incluído estava o pórtico da frontaria conventual. António Correia, mestre pedreiro de Braga, terá sido o executor da obra, o convento, entretanto, foi nacionalizado em 1834 e vendido em hasta pública. A 19 de Agosto de 1898, um violento incêndio reduziu grande parte do convento a cinzas, restando pouco mais que as paredes das quatro alas, perante a indiferença de muitos populares que tiveram de ser coagidos a apagar o incêndio. O proprietário do edifício, Joaquim Domingos Ferreira Cardoso, procedeu, então, à reconstrução do edifício tal como era, exceptuando a parte sul, que ficou limitada ao andar térreo.



Claustro

          Um claustro do século XIV deu lugar, em 1555, a uma obra moderna, com colunas em mármore. Este claustro, entre os dormitórios e a Igreja foi adornado em 1597 com um chafariz renascentista de mármore, mandado construir em Lisboa no ano anterior, e de que não se conhece actualmente o paradeiro, composto por duas taças, cada uma com quatro bicas em carrancas sobre um tanque quadrangular apoiado em quatro pedestais em forma de diamantes almofadados. O chafariz foi colocado no lugar de uma palmeira, árvore que seria frequente nos claustros de outros recintos conventuais da Congregação. A água do chafariz, correndo de alcatruzes de pedra, era depois conduzida até à cozinha onde era usada em limpezas depois de recolhida em dois tanques e, finalmente, era utilizada na rega de hortaliças.
No final do século XVIII, contudo, determinou-se um novo plano para a área conventual que se estendia dos claustros à sacristia e frontaria da igreja, o lajeamento de ladrilhos de cerâmica que fora colocado em 1632 pelo padre Reitor Gaspar dos Anjos foi, entretanto removido e utilizado como material de construção noutros locais. Conta Francisco de Santa Maria que situava-se aqui o túmulo de um "Santo Abbade" a que acorriam pessoas em busca de curas milagrosas. Prova da sacralidade deste túmulo seria o prodígio de que, sempre que um animal profanava o túmulo, ao passar-lhe por cima, acontecia ficar imediatamente com uma perna aleijada. Outro chafariz, antes localizado no pátio do convento, e classificado como Monumento Nacional, foi transferido para Barcelos em 1967, onde está, defronte da Igreja do Bom Jesus da Cruz, no Largo da Porta Nova. O actual chafariz que se encontra no pátio conventual (o antigo "terreiro dos cabedais") é composto por um tanque circular, com uma coluna ornada com elementos vegetalistas e rematada por uma coroa real sustentada por quatro águias, sob as quais correm quatro bicas. Debate-se a datação deste chafariz, existindo autores que o referem como pertencendo a inícios do século XVII, enquanto que outros o identificam como o chafariz mandado erguer pelo padre reitor Joaquim Lopes da Costa entre 1790 e 1792 (finais do século XVIII, portanto).



Fachada Principal :  

           No contexto das obras quinhentistas, o portal principal foi objecto de especial atenção. Em 1523 já estaria concluído, como se depreende dos cronistas do Convento que só a partir dessa data começam a referenciar devidamente as obras do Mosteiro, sem que haja grandes certezas a esse respeito. Caracteriza-se por cinco arcos abatidos, organizados em grupos de três pseudo-colunelos cada, com terminação conupial (semelhante à quilha de um barco), integrados em alfiz, ou seja, enquadrados rectangularmente por dois grandes colunelos que têm a forma de dois troncos podados. Alguns dos colunelos que formam os arcos são chanfrados. Assentam em bases mistilíneas. Está protegido por um alpendre saliente também de arco abatido.
A decoração do portal, de estilo manuelino, mistura os habituais motivos naturalistas com elementos típicos da decoração renascentista, como os chamados "grutescos" (grotescos, na linguagem actual) (cabeças de anjos nos capitéis dos dois troncos laterais - alguns raros apontamentos "animais"). O espaço entre os arcos apresenta apontamentos de simetria em elementos vegetais esquemáticos cuja exigência técnica a nível do tratamento escultórico parece indicar algum mestre de obras de alguma forma ligada a João de Castilho. No vértice do portal, saindo dos limites da moldura rectangular do portal, forma-se uma flor em forma de cruz, provavelmente simbolizando a Santíssima Trindade.

Fachada Principal